Oficina-Montagem, realizada do dia 10 a 14 de maio no SESC Bauru.
“A possibilidade dos artistas bauruenses de terem a vivência com um dos maiores Grupos de Teatro do Brasil.”
————————–>http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=194840 ; O espetáculo faz parte da pesquisa coordenada pelo grupo de Teatro LUME, sobre a teatralização de espaços não convencionais e propõe uma experiência artística de construir coletivamente com um grande número de artistas locais o trabalho de rua desenvolvido pelo Grupo. <——————————–
Impressões: Primeiro Dia. 10/05 (por Renato Crisóstomo)
“Epo Epo Tá Tá Ê
Epo Epo Tá Tá Ê
Epo Epo Tá Tá
Epo Epo Tuc Tuc
Epo Epo Tá Tá Ê”
Estava ansioso para a oficina pelo motivo de que trata de uma das maiores companhias de teatro do país e que as aulas contavam com a superestrutura do SESC – Bauru.
De pensar que passaríamos a semana inteira nesse processo já vem o impulso – dúvida: Qual é a melhor postura do ator antes de um trabalho desse porte? O que esperam os atores da companhia e o que eu buscava ali. Esvaziar a xícara e estar pronto para ser moldado? Mas não haveria até então respostas para a minha ansiedade.
No primeiro dia cheguei bem na hora do alongamento, meu olhar alcançava no mínimo 70 pessoas no estica-e-puxa. Procurei rapidamente passar por todas as articulações alongando as principais pelo curto tempo que tinha.
Ricardo Puccett e Cauê Gouveia eram os oficineiros que nos acompanharam todos os dias e durante a semana acompanhamos a chegada de Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini.
Em um primeiro momento pediram que andássemos pelo espaço. O meu impulso naquele exercício já era o do extra-cotidiano, já muito trabalhado pela Embaixada de Marte, buscando na caminhada desenvolver esses movimentos que fogem do cotidiano comum e dos gestos mecânicos.
Sempre pediam e repetiam para que trabalhássemos a coluna vertebral e seu alongamento e parte dos membros inferiores.
Conforme eu evoluía minha caminhada sentia medo de estar extrapolando nos movimentos e levar uma dura por não seguir o exercício. De repente foi apontado que todos parassem e fui logo em seguida designado a andar sozinho pelo espaço.
Sensação indescritível, por alguns momentos, senti que podia flutuar entre 70 pessoas imóveis. Foi Arrepiante, Espetacular!
Findada a caminhada, nos colocaram em um círculo gigantesco! Os jogos eram: cada pessoa tinha que passar pelo centro diagramar pelo espaço dizendo seu nome e voltar para roda; em grupos de oito construir fotografias em alguns segundos marcando um foco comum a todos.
Um exercício comum apareceu: Bastão. Em círculo, com um bastão em jogo, tínhamos que ir ao centro trocar olhares com outras pessoas e quando retribuíssem, arremessar trabalhando toda a projeção do movimento. O número de bastões aumentava com o passar do tempo, chegando a quatro. Depois todos os bastões eram retirados, ficava só o bastão imaginário que primeiramente seguia as mesmas regras do exercício, depois era trabalhado em dupla.
Em roda com todos um a um ia para o centro, fui o primeiro, e começávamos então a jogar o bastão imaginário com projeções agora muito maiores para que toda a roda pudesse nos acompanhar. Logo me senti exausto e mesmo toda a força que tinha internamente para me impulsionar não ativava o corpo que já não aguentava, me frustrei pela ansiedade neste exercício. Quando todos nós já estávamos no centro chegamos a um estado de muito fluxo de energia e então foi pedido que esse jogo fosse se transformando em uma dança. Era Magnífico e eu nem percebia que o baile tinha apenas começado.
No final da noite cantamos rapidamente algumas das musicas que compunham o espetáculo e nos despedimos.
Foi Maravilhoso! A felicidade de todos devido a oficina foi tamanha que possibilitou, com certeza, a melhor integração e na saída do SESC todos já trocavam, articulavam e se envolviam.
A ansiedade que me inundava no começo foi no percurso da oficina se esvaindo e só me sobrou amor e tranquilidade.
![Oficina-Montagem LUME + SESC Bauru - [dia 10 a 14 de maio]](https://lh3.googleusercontent.com/_ehdwhQK-cHY/Tdq4k4UprRI/AAAAAAAAAyM/YlE6VesqShM/s640/DSC01614.jpg)
Lume, SESC, Bauru
Impressões: Segundo Dia. 11/05
Cheguei bem atrasado no segundo dia, o primeiro exercício já estava acontecendo, as pessoas estavam em quatro filas grandes paralelas, o objetivo era passar por debaixo das pernas de uma pessoa que esperava em frente a cada fila. Com certeza eu fui correndo para uma das filas, minha ansiedade não me deixou pensar antes no exercício e acabei com o pescoço entre as pernas literalmente.
Caminhando pelo espaço, o mote agora era bem conhecido, o Enraizamento. Não que eu dominasse a técnica ou que executaria o exercício com precisão, mas eu e um grupo de pessoas que ali estavam tínhamos uma vivência com esse treinamento devido a um grande mestre, que também nos acompanhava na oficina, que nos havia ensinado em outra ocasião e foi fantástico ver, já antes de começar o exercício, todos já enraizando.
A idéia seguinte era a de uma “quase queda”. Parados em um ponto e tencionando o corpo como uma mesa ou tábua para que não amolecesse, despencávamos o corpo em direção ao chão e quando sentíamos que chegava o máximo do equilíbrio possível apoiávamos com os joelhos flexionados. Invertíamos então o processo e com o corpo leve, mas presente, realizávamos a queda. Essas pequenas quedas eram repetidas e repetidas até que ao tombar o corpo em direção ao chão, quando chegávamos ao limite do equilíbrio, transformávamos a queda em uma imagem congelada com precisão.
No dia anterior, em um momento em que não sei dizer, tinha batido o joelho. E foi durante o exercício do enraizamento que comecei sentir muito forte a dor. Entendi a necessidade de se estar de joelheiras – item recomendado pelo LUME para todos os dias de oficina. Então sentei e somente observei, pois não queria ficar sem a perna.
Ensinaram a posição da pantera que, se não me falhe a memória, começava do enraizamento e ativavam impulsos entre as pernas e que se espalhava pelo corpo.
Parados cada um em um ponto com a base do samurai, movimentos mínimos de caminhada tridimensional, com o foco e o eixo do corpo sempre marcando uma direção e o uso da visão periférica começava então o exercício. A precisão e a energia mínima externa e máxima interna, todos são seus inimigos e no menor sinal de descuido, seus 70 inimigos poderiam te acertar com pequenas sardinhas nas costas. Em vários círculos uma pessoa ficava no centro e com o mesmo exercício da pantera a roda inteira era o inimigo e a tridimensionalidade do movimento talvez sua única ajuda para se salvar das palmadas.
Divididos em três grupos enormes, como guerreiros, atravessamos de um lado para o outro do grande salão. Partimos da projeção do corpo e corremos em direção ao outro lado do salão e quando chegamos próximo a parede usava-se a precisão para parar, voltamos então gritando muito forte em direção ao ponto de partida e mais uma vez: Precisão ao parar.
Andando pela sala, o treinamento que absorvemos anteriormente se tornaria agora processo criativo e a partir da postura da pantera, o combate samurai, diminuição das ações externas a quase 1% atingíamos então um fluxo de energia onde o jogo agora era buscar posturas de animais. Busquei até o dia do espetáculo o cavalo. O cavalo então já não podia assumir postura extra cotidiana e aos poucos novamente ia diminuindo as ações externas e realizando pequenos impulsos de gestos cotidianos. Surgiria o elemento vocalizar.
Dançamos com os bastões no primeiro dia e o baile da embaixada dos animais ia acontecendo no segundo dia. Meu cavalo entrou pomposo e bem clássico e tive o prazer de dançar com diversas outras espécies. Lindo baile dos animais!
“Bésame, bésame mucho
Como si fuera esta noche
la última vez
Bésame, bésame mucho
que tengo miedo a perderte
perderte después”
Com o fim do bailado nos despedimos do segundo dia com o Grupo Lume.
Não estou aqui escrevendo para relatar com especificidade técnica os exercícios apreendidos na oficina, mas colocando somente o que observei, como observei e o que senti.
Continuamos com os dias e agora com o processo de construção do espetáculo.
![Oficina-Montagem LUME + SESC Bauru - [dia 10 a 14 de maio] LUME, SESC, Bauru](https://lh3.googleusercontent.com/_ehdwhQK-cHY/Tdq43MKg5YI/AAAAAAAAA1A/dM3DrU9rlmQ/s640/DSC01910.jpg)
LUME, SESC, Bauru
Impressões: Processo de construção do espetáculo. Terceiro, quarto e quinto dia.
“Avoa Pavão
Pavão avoador
Adeus, morena
Seu namorado chegou
Avoa Pavão”
Divididos em alas, a idéia era que cada ala representasse uma classe da cultura e história da cidade de Bauru. Estavam presentes os digníssimos: Índios, Minotauros, Fazendeiros, Políticos, Tecidos, Birutas, Senhoras da Alta Sociedade, Padre e Freiras e o Prostíbulo da Eny. Eu fiquei com a ala dos Índios onde fui bem acolhido e pude reviver lembranças ancestrais.
Andávamos sempre em grupo, muito unidos, e cada ala era responsável por sua maquiagem, figurinos, e até mesmo pela força e ações do grupo.
Caminhávamos em blocos dentro do pátio de ensaio sempre explorando posturas e adaptando ao treinamento já realizado nos primeiros dias.
Via-se claramente formando as alas e o comportamento que cada alegoria adquiria.
Um exemplo bem claro do que me passava os olhos foi quando os índios, ala qual eu pertencia, se deparou com a ala dos fazendeiros que, ao ver os índios, assumiram cada um por instinto, a postura de ataque. Formamos então uma corrente de índios que caminhava em direção aos fazendeiros que devagar travaram a batalha e ganharam pela posse de armas de fogo. Fantástico! Parecia realmente um campo de batalha e mesmo descaracterizados percebíamos na face de cada um surgir às personagens.
O encontro então seguia com a experimentação das alas e da customização de figurinos e maquiagem.
![Oficina-Montagem LUME + SESC Bauru - [dia 10 a 14 de maio] Lume, SESC, Bauru, Vitória Régia](https://lh6.googleusercontent.com/_ehdwhQK-cHY/Tdq6vOQbK1I/AAAAAAAAA5c/cfM8DBx5Gww/s640/Fotos%20Fuji%202011%20003.jpg)
Lume, SESC, Bauru, Vitória Régia
——————> O meu primeiro contato com o público ainda dentro da oficina.
Enquanto me preparava como índio e adaptava posturas, percebi o olhar de um pequeno grupo de crianças próximo ao local. Cheguei mais perto com a cara um pouco até que suja, uma calça de algodão cru e um chocalho. Índio! Índio! Índio! Gritavam pra me chamar e eu percebia que fantástico conseguir passar a mensagem de um personagem somente com os gestos com o corpo, os recursos materiais para que identificassem como índio eram mínimos.
Brilhavam os olhos todos menos um, que quando indaguei porque a cara fechada e porque fazia pouco caso do Índio – sem perder a pose de índio – me respondeu com um lindo produto da era da depressão, dos videogames, da solidão: ÍNDIO NÃO EXISTE! OUTCH!
Que frustrante! Apoiei então os dois cotovelos no chão em seguida a cabeça e ergui as pernas para cima conversando com os meninos praticamente de ponta cabeça. UFA! Consegui o sorriso e o reconhecimento do garoto que foi muito gratificante e graças somente a expressão do corpo, nunca contei pra ele das viagens da tribo e mesmo assim consegui surtir o efeito da descoberta. Sen-sa-ci-o-nal! <———————-
No sábado nos reunimos para ensaiar as músicas com a Bateria da Ouro Verde 100% Arte (Centro comunitário Ouro Verde “100% Arte”. Quase nove anos de funcionamento do projeto social em Bauru que oferece aulas de capoeira, música, confecção de instrumentos, um cineclube e é a sede do bloco de carnaval). A chegada do grupo no SESC deu uma outra energia para todos. Energia que naquele momento começava a atingir proporções que podiam ser ampliadas para um grande Público.
Acredito que o processo de construção do espetáculo foi com muita tranquilidade passada para todos e recebido com grande entusiasmo e pró-atividade.
O processo que foi o mais gratificante possível fica na saudade sem que nem soubéssemos ainda, pois só estávamos esquentando para o grande dia do cortejo…
“Mamãe eu vou pra escola
Aprender a ler, a tocar viola
Ê bumba chora
Ah ha ha vamos embora!”
![Oficina-Montagem LUME + SESC Bauru - [dia 10 a 14 de maio] LUME, SESC, Bauru](https://lh5.googleusercontent.com/_ehdwhQK-cHY/Tdq64A5OjqI/AAAAAAAAA6Y/F8Cc6ghdNDg/s640/Fotos%20Fuji%202011%20028.jpg)
Lume, SESC, Bauru
Harmonia,
Embaixada de Marte.
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